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Nosso destaque - 27/08/2020

Águas calmas não fazem bons marinheiros

​O milenar provérbio de origem indiana nunca esteve tão em voga. De forma alusiva, ele traduz, de maneira simples, que a nossa vida é preenchida por uma infinidade de experiências e imprevistos que irão nos afetar de alguma maneira. Alguns deles podem nos desnortear e tirar o equilíbrio. Mas sem dúvida trazem aprendizados, estimulam a consciência a respeito da vulnerabilidade da vida e necessidade de proteção, e nos deixam mais fortes para seguir em frente, planejar novos sonhos e encarar desafios.


Esse provérbio se encaixa perfeitamente ao mercado de seguros. Explica, por exemplo, o porquê a Europa e o Japão, que historicamente passaram por severas guerras, crises econômicas e sanitárias, além de desastres naturais, terem desenvolvido tanto a cultura da educação e do planejamento financeiro, de forma a ultrapassar os momentos de adversidade de forma mais preparada e amena. Nesse contexto, a proteção dos seguros tem papel relevante. Levantamento do European Insurance, federação europeia de seguros e resseguros, revelou que as seguradoras europeias emitiram €1,3 trilhão em prêmios em 2018, com crescimento de 6,2% em relação a 2017. Os prêmios europeus de vida, que representam 33% do total do mercado mundial de vida, cresceram 6,7%. O setor segurador europeu emprega diretamente mais de 900 mil pessoas e investe mais de €10 trilhões na economia. Já no Japão, a cultura de planejamento financeiro é tão enraizada que não só os bens são segurados, mas também as vidas dos japoneses. 

Quase 90% das famílias contam com seguro de vida, de acordo com pesquisa da Japan Institute of Life Insurance. Nos países desenvolvidos, as crianças aprendem desde cedo na escola sobre economia doméstica e lições sobre a importância de economizar recursos para se proteger em tempos difíceis.

No Brasil, o cenário foi bem diferente até décadas atrás. O mercado de seguros se tornou mais aquecido apenas nos últimos 20 anos, mais especificamente após a implantação do Plano Real. Antes, o setor era extremamente reduzido para os padrões internacionais, devido à inflação alta e à legislação em constante mudança, que impedia o desenvolvimento de novas empresas. Com tantas incertezas sobre o comportamento da economia, os brasileiros não tinham condições de realizar planejamentos financeiros.

Apenas com a estabilidade de preços e equilíbrio da economia é que esse planejamento a médio e longo prazos tornou-se possível. Este fato fomentou mercados de fundos de investimento e seguros que, desde então, vêm registrando crescimento positivo a cada ano, trazendo novos players para o mercado, como a abertura para o segmento de resseguros, e produtos inéditos para os consumidores brasileiros.

Para se ter uma ideia, a receita anual do setor segurador apresentou em 2019 a maior taxa de crescimento desde 2012, com uma evolução de 12%, totalizando R$270,1 bilhões, de acordo com dados da Confederação Nacional de Seguros (CNseg). O segmento de Seguros de Pessoas continua sendo o grande responsável por esse bom desempenho do setor, apresentando um crescimento de 13,9% em 2019, com destaque para os seguros de Vida (19,7%). Vale ressaltar que mesmo com a trajetória crescente, o setor de seguros ainda representa cerca de 6,7% do PIB brasileiro. Se olharmos para o segmento de seguro de pessoas, esse número é de apenas 0,6%, o que mostra o enorme potencial de crescimento que temos no país.

Dentro desse contexto, a pandemia do novo Coronavírus se instalou no Brasil e no mundo, trazendo um enorme desafio para todas as formas de organização política, social e econômica. Apesar da lamentável crise na saúde, dados atuais mostram que o setor de seguros tem demonstrado força e resiliência, mesmo em um período de dificuldades. O faturamento do mercado,de acordo com a CNseg, totalizou R$ 81 bilhões no primeiro quadrimestre deste ano, revelando alta de 4,9% em comparação ao mesmo período do ano passado, fato que reitera a solidez do segmento. No caso da Prudential do Brasil, o crescimento no faturamento foi de 16% no mesmo período, alcançando R$ 1,1 bilhão.

A turbulência nos mercados diante da Covid-19 trará um legado positivo: o mercado de seguros, especialmente no ramo Vida, deve sair da crise mais maduro. Temos a expectativa de que o consumidor fique ainda mais aberto para ouvir sobre seguro de vida, já que estará mais consciente a respeito da vulnerabilidade e finitude da vida, e mais estimulado para a necessidade de se proteger diante de cenários imprevistos como o que estamos vivendo. Dados recentes já mostram essa tendência. Durante esse período de pandemia, houve um crescimento de 20% na busca do termo seguro de vida no Google Adwords, segundo o Sindicato das Seguradoras – Norte e Nordeste. Também um estudo do Google revelou que a procura por termos relacionados à proteção financeira aumentou 157% entre fevereiro e março.

Acredita-se ainda que ao migrarmos para o período de pós-pandemia, com a rotina voltando à normalidade, a conversa sobre seguros e proteção tende a ser ampliada e mais aquecida. O Brasil está no caminho certo para formar bons marinheiros, em busca de um amanhã mais seguro.


David Legher é presidente e CEO da seguradora Prudential do Brasil.

Publicado no Jornal Valor Econômico em 27/08/2020.​